RPG? É aquele negócio da coluna?

Brinks

Pessoal, obrigada pela acolhida calorosa de volta à blogosfera RPGística! Espero não espantar ninguém quando eu começar a postar sobre o velho World of Darkness… mas vamos ao que interessa hoje, porque pelo visto minha responsabilidade cresceu bastante nos últimos dias (iiihhhh…. xD).

Afinal de contas, o que é esse tal de RPG?

É CLARO que você acha que está cansado(a) de saber. Ainda que novatos sejam bem-vindos, imagino que o público (meus 6 leitores!) do Dado Violado já esteja careca de tanto rolar dado, montar ficha e rezar pra ninguém faltar à sessão. A questão aqui é outra: você já parou para pensar sobre o RPG, ou apenas se deixou levar pela experiência em si, irrefletidamente?

No “about” do Dado Violado (vou começar a usar DV, ok?), eu copiei a definição que está na Wikipédia:

Role-playing game, também conhecido como RPG (em português: “jogo de interpretação de personagens”), é um tipo de jogo em que os jogadores assumem os papéis de personagens e criam narrativas colaborativamente. O progresso de um jogo se dá de acordo com um sistema de regras predeterminado, dentro das quais os jogadores podem improvisar livremente. As escolhas dos jogadores determinam a direção que o jogo irá tomar.

Eu concordo com boa parte do que foi dito aí, já é um fiapo para gente começar a desenrolar o novelo do RPG. Mas o começo do parágrafo me incomoda. Sim, é aquele “interpretação de personagens”. Hoje vejo muitas pessoas preferindo esse termo. A tradução consagrada no Brasil é “jogo de interpretação de papéis”, mas não é só isso que chama atenção. Vamos analisar com calma.

“Personagem” e “papel” nem sempre são sinônimos. Penso que personagem está muito ligado à questão de uma identidade, enquanto papel representa mais uma função. No teatro talvez não seja necessário fazer esta distinção, mas no RPG ela me parece essencial, pois a maioria dos personagens é construída a partir de suas funções (“corre rápido”, “eu sei os nomes das constelações”, “tem Força 4”, “tem Sabedoria 8”, “desarma armadilhas”, etc, em termos simples de jogo).  Jogos como FIASCO, por exemplo, vão mais longe e propõem que a identidade do personagem seja fundamentada durante o jogo, tendo como base não uma ficha, mas um papel qualquer que destaque as atribuições (e atribulações) do indivíduo a ser interpretado…

Eu até me pergunto se essa questão do papel x personagem não seria um preciosismo irrelevante, mas eu acredito que faz mesmo diferença, conceitualmente falando.

Bom, para levantar essa lebre (meu pai sempre fala “levantar a lebre” [sem duplo sentido]) sobre a definição da Wikipédia, é claro que eu já tinha meu conceito particular de RPG na manga, só que ele é um pouquinho mais conciso que o da Mãe dos Burros:

RPG (“Role playing game” ou “jogo de interpretação de papéis”) é um tipo de jogo baseado na interpretação de papéis, onde se constrói coletivamente uma história.

Penso que essa frase simples contem tudo o que define o nosso bom e velho roleplay: o fato de que RPG é um tipo de jogo; a necessidade de assumir um papel dentro deste jogo (mesmo que seja o papel de “guia” – Mestre, DM, GM, Narrador, pick your poison); o caráter coletivo da experiência e, por fim, o resultado final da mesma, que é uma “história”, uma narrativa.

Claro que a minha proposta não é definitiva, e com ela vêm outras questões: o que é “interpretar”? De que maneira se dá esse processo colaborativo? Ele sempre culmina na geração de uma história? RPG com regras inventadas é RPG? RPG epistolar/por email/via fórum é RPG ou é apenas ficção coletiva?

Mas essas questões eu vou deixar para o futuro, acho que ainda terei posts o suficiente para brincar com elas.

Então chega mais e me conta: para você, o que é RPG?

Apêndice 1
Quando eu falo que um personagem é construído “a partir” de suas funções, até já me arrepio pensando em alguém argumentando que “PÔ LIVIA, eu sempre começo do prelúúúúdioooo….”. Bom, não importa de onde se comece, para jogar RPG é preciso definir algum tipo de papel para você na história e é disso que partem as mecânicas dos RPGs que eu conheço. “Tá falando de CLASSE?” Não não, estou falando genericamente. Esse papel não é classe nem atributo, é mais ou menos o que um personagem (ou se você estiver jogando Universalis, uma história…) pode ou não pode fazer, como ele se comporta, a parte que lhe cabe do mundo, aquilo que se espera dele, o propósito, etc.

Apêndice 2 (fonte: Google scholar e Google books)
Um pouco da etimologia de “role”: deriva do francês “rôle” (papel representado no teatro ou na vida), que por sua vez vem do francês antigo “rolle” (rol, lista, rolo com coisas escritas, rolo com o papel de um ator no teatro). “Rolle” vem do latim “rotulus”, que significa tanto pergaminho (“folha enrolada com coisas escritas”) quanto “folha enrolada onde está escrito o papel de um ator”. “Rotulus” teria dado em… “rótulo”, aqui no português. E em rolista. xD

Imagens meramente ilustrativas

10 Respostas para “RPG? É aquele negócio da coluna?

  1. Ótimo artigo, Lívia. Concordo plenamente com sua definição. Vou até adotá-la a partir de agora.🙂

  2. Foi fundo nessa questão, hein?

    Concordo quando diz que RPG é sobre interpretar papéis, está na origem do jogo. A ideia de aprofundar personagens como personalidades só viria depois.

    Hoje em dia, há quem encare mais como jogo e outros mais como interpretação, depende do estilo de cada grupo.

    O texto ficou muito bom, e as curiosidades em latim no final foram um anticlímax divertido pra toda a seriedade colocada no assunto.

  3. Boa! Eu realmente não gostava muito da outra definição.
    Sempre que eu ouço alguém falar “vou pro RPG” eu acho que a pessoa vai jogar algo, UHSUHSUSHUHS.

  4. Concordo, essa definição é mais simples e mais fácil para quem não conhece o RPG digerir o conceito. Sou a favor de editar a “Mãe dos Burros” hein! =]

    Parabens pelo blog, e sucesso!

  5. Parei pra ler este blog e já neste primeiro artigo vejo que foi um tempo muito bem aproveitado.

    Você definiu melhor o que é RPG, creio eu, que sempre ouvi e reproduzi que RPG é um jogo de interpretação e ponto.

    A diferença entre papel (=função) e personagem (características interpretativas) ficou-me clara, deste modo. Mas, devo admitir que não aconteceu o mesmo aquanto a dicotomia “papel x classe”.

    • @ todo mundo: obrigada pelos comentários.

      * * *

      @ Gabriel: tente fazer o raciocínio contrário, comece pensando nos RPGs sem classe e tente imaginar o “papel” de um personagem neles.

  6. Bem, em agradecimento ao ótimo post feito no meu aniversário, resolvi comentar também, mesmo que somente para ratificar o que todos os outros disseram… A definição ficou muito boa mesmo, há tempos tento criar algo simplificado para utilizar quando explico RPG a um leigo, e essa sua definição se apresentou muito bem.

    Enfim, parabéns pelo post e espero ver coisas de ótima qualidade por aqui, boa sorte com tudo! =D

    Abraços,
    Petra

  7. Preciosismo por preciosismo, Role Playing Game tem como verbo play e como objeto game, sobrando ao role a função de sujeito. A verdadeira tradução é personagem/papel atuando/interpretando [um] jogo.
    Brincadeiras a parte acredito em personagem emergente e que até a interpretação, um prelúdio de dez páginas ainda não é um personagem. Naturalmente, isto me leva a sugerir que se jogue o prelúdio, uma coleção de flashbacks, as cenas marcantes.
    E para mim, RPG é um jogo onde um grupo de pessoas cria/recria uma história coletivamente dentro dos limites auto impostos pelo sistema de regras aceito.

  8. E aí, depois de dois anos e uma imenso debate sobre o assunto, o que você mudaria no artigo?

    • Não que seja uma opinião definitiva, mas acho que por enquanto eu não mudaria nada. O que você acrescentaria ou modificaria?

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