Cadê o limite que estava aqui?

De que limite estamos falando, mesmo?

Eles não me contaram sobre o resto, mas certamente eles sabiam do que se tratava. Os caras na Inteligência do Novo Governo da Terra não são idiotas. Mas se eles tivessem me contado tudo, eu jamais teria sido voluntário. Eu até esperava tatuagens ou algum rito de passagem. Mas piercings extremos e escarificação são algo completamente diferente. Meus dentes foram todos afiados. Não sei há quanto tempo não vejo um espelho, mas tenho certeza de que não pareço mais humano. Não que eu me sinta depois de tudo o que tive de fazer. Ajudei a exterminar vilas inteiras, torturar brutalmente e matar pessoas inocentes. Comi carne humana – repetida e regularmente. Estuprei mulheres até a morte. E fiz pior com crianças depois de elas já estarem mortas.
(CthulhuTech rulebook, pg 203)

O que diriam os “ativistas” anti-D&D se soubessem o que habita os jogos mais ‘desconhecidos’? Você não precisa baixar um pdf de F.A.T.A.L. (com suas regras de elasticidade anal) para se deparar com violência, heresia, sexo, perversão e todo tipo de tema-apavora-mãe dando sopa e esperando o momento certo para aparecer na sua mesa de jogo.

Os radicais americanos têm um horror atávico a tudo que lembre “Fantasia” (acho que, se pudessem, ainda estariam queimando “bruxas” no intervalo das aulas de Criacionismo [projeção? rs]), mas há muito mais disponível do que magos com bolas de fogo, vampiros arrependidos ou monstros destruidores de cidade para os jogadores de RPG. Não que eu queira oferecer munição aos haters, mas e aí, é possível trazer para a mesa de jogo pedofilia e estupro? Ou amor e traição? Aliás, vale a pena abordar esses temas? Como fazê-lo? E, acima de tudo, tem um limite para isso?

Keith e Kevin sempre foram cruéis comigo. Eles eram gêmeos, e meus irmãos mais velhos, mas não poderiam ser mais diferentes de mim. Baixos quando eu era alta, morenos quando eu era loira. Algumas lembranças são mais dolorosas que outras; como quando eles mataram meu cachorro Sparky e colocaram sua cabeça decepada sobre a minha cama. Ou quando eles me amarraram no estábulo e me bateram com o chicote do cavalo. E quando eles me forçaram a vê-los abrindo a barriga de nossa gata grávida e a deixaram sangrar até morrer. Eles me trancaram no porão com o cadáver da gata, que atraiu os ratos. Quando eu fiquei mais velha, Kevin me forçou a fazer coisas com ele, que ele disse que todo mundo fazia com irmãos mais velhos. Eu fiquei terrivelmente confusa e envergonhada, e pensei em me matar.
(Kult rulebook, pg 33-34)

Quando eu era adolescente, minha mãe dizia que as sessões de jogo com meus amigos eram “a catarse dos nerds”. Nunca fui uma excluída social (apesar de tudo), mas um jogo de RPG pode ser encarado como uma experiência catártica, além de simples passatempo – e aí a temática madura cai como uma luva de lâminas na mão do Freddy Krueger. Experimentar a transgressão num ambiente seguro e virtual (no sentido de fictício) é uma forma de libertação, e provavelmente é o mais interessante nesta história de acrescentar a parte maligna do mundo nos nossos jogos.

Além da possibilidade de vivenciar o medo e o nojo de forma segura, incluir temas muito cabeludos nos jogos também serve para torná-los mais realistas – e às vezes é bom fugir do escapismo da fantasia tradicional, trazendo para o nosso grupo de jogo (que geralmente é nosso grupo de amigos) a possibilidade de discutir coisas como preconceito, maldade, sexo.  Eu acredito na força da palavra e, sendo o RPG um jogo calcado no discurso, me parece imperdível a oportunidade de resgatar esses temas que nós gostamos de manter guardadinhos no fundo de algum armário psíquico/emocional.

Outro bom motivo para falar de assuntos difíceis é aprender a torná-los mais palatáveis na vida real. Claro que aqui eu não falo de estupro e ultra-violência, mas é interessante conseguir conversar sobre sexo e sentimentos (sim, sentimentos são temas pouco explorados nos jogos de RPG – seria por algum vício machista?) com mais naturalidade. Tanto para homens quanto para mulheres, e principalmente num grupo misto – pode ser uma ocasião única para observar as reações dos outros e aprender com elas.

Quais dos seguintes pecados seu personagem cometeu?
Escolha nenhum, um, qualquer um, ou todos eles:
Adultério
Blasfêmia
Idolatria
Assassinato
Motim
Estupro
Roubo
Sodomia
Você pode contar o mesmo pecado duas vezes, se o seu personagem anda pecando de modo prolongado, repetido, excessivo e sem remorso, e o vem fazendo até hoje.
(Poison’d A Pirate RPG, pg 4)

“Tudo bem, eu entendo seu ponto de vista, Livia. Mas COMO falar disso na mesa sem deixar ninguém sem graça? Sem fazer todo o grupo pensar que sou um(a) tarado(a)?” É só lembrar do “poder das palavras” (auto-ajuda style, hehehe) e chamar o pessoal para conversar, ver o que cada um espera da sessão, se todos estão dispostos a acrescentar novas camadas ao jogo, torná-lo mais denso. Convide a galera a ler o DV, por exemplo. Na minha experiência, muitos grupos se tornam mais profundos com o simples passar do tempo, naturalmente. Mas em outros pode ser necessário verbalizar esse anseio, e não tem nada de errado nisso. O importante é entrar em consenso.

Clique e reflita a respeito

Não dá para chegar com a contracapa do clanbook Tzimisce na sua mesa de Tormenta que só joga aventuras infantis no mundo do chocolate e querer obrigar o pessoal a interpretar vampiros assassinos que só se alimentam de bebês. Transgredir é legal, ser exageradamente agressivo não – aliás, optar pelo excesso não vai trazer maturidade à mesa, pelo contrário: é das crianças que esperamos tanta inconsequência. E o limite entre transgressão e babaquice é individual, por isso você precisa ir com cautela, respeitar os desejos do grupo, avaliar limites de idade, limites de crença religiosa… para saber até onde sua mesa está disposta a ir, é preciso avançar com cuidado e paciência. Algumas pessoas só querem mesmo passar algumas horas num “mundo melhor”, onde a honra ainda vale alguma coisa, e isso não faz de ninguém um tolo imaturo.

“Ih, Livia… minha mesa só tem maluco, já estamos decapitando bebês há séculos. O que fazer?” Parar e pensar. Além do batido conselho de conversar com o grupo, tentar entender porque tanta “fleuma“. Será que a violência está sendo usada sem conexão com a realidade? Será que os personagens aparecem como capangas de vídeo-game, sem passado ou presente que os torne seres palpáveis e que causem empatia nos jogadores? Praticamente todo jogo propõe punições para personagens que se tornem excessivamente degenerados – será que o mestre do seu grupo está fazendo valer essas regras? Pense no mundo real: ninguém tolera o terror por muito tempo, as pessoas se revoltam e de alguma forma tentam encontrar o equilíbrio. Talvez seja hora de colocar os NPCs como antagonistas mais fortes. É claro que o seu grupo pode simplesmente gostar do deboche – aí, caso você esteja se sentindo deslocado(a) e não veja como mudar, talvez seja hora de mudar de grupo.

Under my Skin (Sob a Minha Pele) é um jogo sobre fé, amor e compromisso. Neste jogo, você interpreta um personagem que está num relacionamento, mas sente atração por outra pessoa. Os jogadores exploram os medos que os personagens experimentam sobre perda e traição, e navegam pelos complicados dilemas da franqueza, confiança e comunicação que desafiam todos os relacionamento de tempos em tempos.
(…)
Este jogo requer que os jogadores  falem sobre questões emocionais sérias durante o mesmo. Por favor, jogue com consciência, e divirta-se perigosamente.
(Under my Skin, pg 5)

Apêndice 1
Outra forma de abordar uma temática mais adulta é através da ficção. Discuta obras com um conteúdo mais realista e “mundano”, como os livros da série “Crônicas de Gelo & Fogo” (fantasia medieval), os livros da Marion Zimmer Bradley (tem de ficção arturiana a ficção científica) ou filmes como “Conquista Sangrenta” (fantasia medieval para crescidinhos). Enquanto todo mundo quiser repetir “O Senhor dos Anéis”, não dá para colocar orcs estupradores na aventura. Obs: eu amo Tolkien assim mesmo.

Imagens meramente ilustrativas

6 Respostas para “Cadê o limite que estava aqui?

  1. Um narrador deve sempre ter em mente que um tema existe para criar clima e não discórdia, e mesmo se ocorrer é no aspecto do mood do cenário. Excelente post para quebrar de vez os receios de narração e finalmente trazer a tona o RPG para maiores!🙂

  2. Acho que a melhor resposta a esse post já escrevi há alguns meses, como introdução de um livro de contos:
    “Bem vindo a Eldorado.
    Eldorado é uma cidade, uma ilha não tão longe do continente e cuja principal atividade econômica é o crime. Nas próximas páginas teremos alguma linguagem vulgar, bastante violência naturalizada e alguma coisa quase pornográfica, afinal a cidade gira em torno desses três eixos, crime, sexo e violência.

    Mas na verdade Eldorado é um pretexto. Um pretexto para falar de pessoas. As pessoas que vivem na selvagem Eldorado são muito menos medíocres que as que vivem em nosso mundo civilizado e pasteurizado. A sociedade tem limites e estes limites cerceiam as personalidades. Qualquer personalidade mais extrema no mundo real acaba no hospício ou na prisão, as duas instituições de manutenção da ordem por excelência segundo Fouculat.

    Nosso mundo é o mundo da ordem. Escola, igreja e família nos colocam, nos educam, nos criam dentro da ordem, já dizia Bourdieu. Na juventude quem é saudável começa a se rebelar contra a ordem mas dentro do limite que hospício e prisão delimitam, mantendo a estabilidade do mundo.

    Se você precisa de uma desculpa ou justificativa para ler um livro que fale de violência, sexo e crime, pense que no mundo real, nunca se alcança um grau de liberdade aceitável já que os limites são bastante estritos.

    As escolhas em Eldorado são mais profundas, mais pesadas, porque no mundo real nossa escolha é mais restrita. As atitudes são mais sinceras porque no mundo real não agimos fora do cercado.
    Eldorado é feia, suja e bárbara. Mas só é barbara por ser feia e suja e exatamente por ser bárbara é dionisíaca, vital. O processo civilizatório do ocidente é o processo de artificialização da vida, de contentamento com a liberdade dentro de limites, com a criatividade com limites, do amor com limites, da religião com limites. A imposição de civilização apolínea que se confunde com o desejo de cordialidade e bondade massacra o princípio vital, a pulsão erótica.

    Obras como Uma Laranja Mecânica desmascaram mitos e apresentam uma discussão ética mais profunda e complexa que o dever ou o imperativo categórico kantiano. Na equação de Uma Laranja Mecânica há espaço para desejo pessoal, desejo coletivo, medo, perversão, vingança e pragmatismo.

    O mito do homem civilizado, cordial e sem preconceitos é estilhaçado pela descoberta de que nós somos a besta, nós somos o abismo no qual olhamos e que olha de volta. Nossa pureza nada mais é que a assunção de uma prerrogativa de recorrer à força contra o outro.
    A pasteurização apolínea é o mascaramento da besta e os bons religiosos reproduzem e perpetuam o preconceito contra os malignos ateus. É a ocultação de que a civilização é um processo de tolhimento da liberdade que se perpetua através da violência disfarçada de educação e amor familiar ou institucionalizada através de forças de polícia e instituições psiquiátricas.

    Quando mascaramos a besta nos tornamos a besta. Quando não olhamos para o abismo caímos nele. É mais saudável desconfiar da virtude que do vício e evitar a defesa radical das “instituições”.
    Eldorado não busca construir um futuro melhor, não busca desmascarar a hipocrisia, não busca incentivar a construção de uma sociedade menos baseada na violência mascarada e institucionalizada. Busca apenas falar de pessoas. Pessoas que em um ambiente menos restrito tomas decisões, têm sentimentos, vivem.
    Mas Eldorado busca não ignorar a besta ou o abismo. Busca retratar seus personagens com tudo que tenham, sejam ou queiram, seja isto considerado bom, mau ou louco. E faz isso em um lugar menos civilizado porque neste lugar há mais liberdade e se pode ser mais bom, mau ou louco.
    Bem vindo a Eldorado. Se posso fazer um único pedido, olhe sempre para o abismo, para a besta. Em outras palavras, o espelho é assassino, por isto mesmo olhe sempre para ele.”

  3. Essa ElDorado lembrou-me de O cortiço – literatura brasileira.

  4. Parabéns pelo Blog. Tratar a forma adulta do RPG é algo difícil, mas por deveras interessante. Em alguns aspectos sempre acabei sendo um pouco retraído (seja por minha crença religiosa, seja por crenças morais mesmo). Porém nos quais consegui discorrer sem grandes dificuldades, mostrou-se uma experiência muito boa, tratar esse aspecto menos ortodoxo da humanidade.
    Há algum tempo não acompanho mesas, passei a me limitar com jogos em fórum. E devido a grande gama de pessoas nesse contido, torna-se um pouco mais complicado tratar dessa área.
    Espero poder acompanhar seu blog (e me atualizar xD). Novamente deixo minhas congratulações!

  5. Interessante a reflexão sobre limites! Sob pena de parecer em cima do muro em todas as questões, direi que também nessa faceta o limite depende de cada grupo.

    Dois exemplos pessoais:
    1- Minha PRIMEIRA aventura de RPG, ainda nos tempos de colégio, terminou com meu maguinho de 1° nível de AD&D (aqueles que só tinham uma magia por dia!) capturado, violentado e assassinado por uma tribo de bárbaros. Piada de mestre sádico adolescente, claro, mas me incomodou bastante na época, e demorou alguns dias até que eu achasse que valia a pena tentar jogar de novo.

    2- Eu também considerava Tormenta como um cenário infantilizado de anime de fantasia medieval, muitos pontos do cenário apontavam pra isso, embora eu visse potencialidades que pareciam pouco exploradas pelos autores. Essa opinião durou até que eu lesse O Inimigo do Mundo, onde o autor fez uma história densa e profunda, bastante pesada, com violência, mutilações, estupros, corrupção de inocentes e insanidade em suas formas mais repulsivas. Difícil ver algo semelhante em outros produtos de D&D, mesmo os literários.

    Então, meu adendo pro seu post é um conselho para cada mestre: conheça seu grupo. Saiba o que eles esperam e quais os limites que tornam o jogo divertido em vez de perturbador para cada um. Grupos maduros conseguem trabalhar temas maduros de forma divertida, o que contribui para o crescimento intelectual de todos. Mas alguns grupos só querem mesmo matar o dragão e fugir com a princesa…

  6. Olha Livia, a cada post que leio aqui gosto mais do seu blog. Muito interessante a forma adulta de abordar o jogo e essa discussão de polêmicas que você fez agora. Estou repassando esse artigo para muitas pessoas que conheço, e vou divulgar o máximo que puder.

    Eu digo inclusive que nossas mentes criaram mecanismos para abstrair a violência e certas formas de perversão, treinadas pela mídia e pela falsa moral da sociedade. Matamos orcs e bárbaros a rodo com nossos guerreiros sanguinolentos, mas se vemos um morto em um jornal sensacionalista, nos sentimos mal. Pessoas seminuas desfilam em qualquer história, e glorifica-se o personagem “pegador”, mas tem-se vergonha de falar abertamente de sexo – isso sem falar em temas mais adultos. Mas com certeza, estamos mais acostumados a abstrair a violência do que os outros temas.

    Como você disse, o melhor é estabelecer o contrato social tácito na mesa, mas mesmo assim é interessante chamar a atenção e refletir sobre a nossa própria mania de evitar a discussão bacana que pode render uma simples história de jogo, sobre temas que estão aí na nossa cara.

    Você escreve MUITO, garota.

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