5 livros civis para RPGistas hardcore

Soldados jogando RPG no Iraque

Todo mundo sabe que RPG é um passatempo diretamente relacionado à leitura – ou pelo menos deveria ser. E alguns livros são exaustivamente citados sempre que se fala de literatura para jogadores, como O Senhor dos Anéis, as Crônicas Vampirescas da Anne Rice, O Guia do Mochileiro das Galáxias e, mais recentemente, As Crônicas de Gelo e Fogo. Beleza, se você é um/a RPGista velho de guerra, certamente já leu ou pelo menos ouviu falar destes livros. São “obrigatórios” para quem se alistou no RPG.

Mas assim como o mundo dos tabletop games não se resume à D&D-GURPS-WoD, livros não se resumem a fantasia medieval, ficção científica ou histórias de vampiros. Nem a Neil Gaiman, Terry Pratchett, Asimov e coisas do tipo. Não, não estou criticando essa galera (como eu poderia?), apenas sugerindo que você vá, ousadamente, aonde poucos RPGistas se atreveram a ir. Aliás, considerando as coisas que eu leio nas redes sociais, que você se aventure por terrenos que quase ninguém mais trilha… porque num mundo em que poucas coisas ainda me impressionam, vira e mexe me surpreendo com pessoas que decidem jogar um jogo que costuma usar livro de regras mas não querem (e geralmente nem conseguem) ler. É para acabar com a fleuma de qualquer um…

Bem, caso você já tenha tido o prazer de ler todas as minhas sugestões, deixe suas próprias dicas de livros “civis” nos comentários.

1) Lolita, Vladimir Nabokov
Não me acusem de desonestidade com o post só porque este é um dos meus livros favoritos. Ele merece ser lido por RPGistas porque todo mundo que use a língua (no sentido de “idioma”) como profissão ou hobby pode aprender alguma coisa com o romancista russo, que deitou e rolou escrevendo em inglês. Lolita é a cínica auto-análise de um pervertido apaixonado, um road-movie em versão livro, uma novela de mistério com perseguição policial e tudo. Você só vai se lembrar de que foi escrito na década de 50 quando sentir falta de um celular na mão da personagem-título.
E o que RPGistas podem aproveitar do livro? Bem, além de se deliciar com um mago das palavras (e Paulo Coelho se retorce de inveja) e tirar vantagem da habilidade linguística de Nabokov para suas próprias narrativas, aqui você vai ler descrições de viagens pelos EUA, vai “entrar na mente” de um personagem atormentado, vai observar com detalhes a construção de uma obsessão (e seu fim trágico), vai aprender que dá para criar personagens interessantes com um quê de patético sem cair no lugar-comum do anti-herói e, entre outras coisas, vai descobrir que quando a Playboy chama de “ninfetas” mulheres de 21 anos posando peladas, eles estão viajando na maionese.
PS: os filmes não têm nada a ver.
Citação: Estou pensando em bisões extintos e em anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.

2) Gueixa, Liza Dalby

Liza Dalby

Uma antropóloga americana decide viver como uma gueixa no Japão para compreender esta cultura. É uma obra de não-ficção simplesmente fascinante. Para quem curte histórias orientais, é um ponto de vista bastante diferente do que tradicionalmente se encontra nos RPGs: uma americana mergulhando num recanto absolutamente japonês, e com foco não em shoguns, samurais, katanas e assassinatos, mas em mulheres, arte, dramas cotidianos pungentes e universais. Os bons RPGistas irão aproveitar as descrições detalhadas de costumes, roupas e alimentos; as citações em forma de haikai; as inúmeras ilustrações e fotos… enfim, Gueixa é um manual de ambientação para o mundo das “flores e salgueiros” – aliás, para qualquer cenário minucioso que envolva o oriente.
Citação: todos viram de longe a virgem dragão / agora transformada em buda

3) O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger
Dizem que este é o livro preferido dos assassinos (o cara que atirou no John Lennon curtia), mas não é por esse motivo torpe que eu indico a obra. Os temas centrais da história podem fazer parte de qualquer narrativa de RPG que envolva o mundo adolescente, como no moderno Misspent Youth. O livro aborda coisas como angústia, rebeldia, descobrimento da sexualidade, formação da própria identidade…  a história de Holden Caufield, o narrador de 17 anos, pode ser aproveitada em jogos sobre perda da inocência e aquele sentimento de solidão típico da juventude. Na verdade, talvez vocês até se identifiquem com o moleque problemático – todos nós já fomos adolescentes, né não? Então, aproveite a leitura para dar mais profundidade aos personagens jovens do seu jogo. Mesmo se você estiver jogando algo tradicional, pode ser interessante explorar os efeitos da adolescência no seu moleque ladino ou na jovenzinha carniçal. E veja quanta história cabe em dois dias de narrativa!
Citação: A gente nunca devia contar nada pra ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.

4) Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Todo mundo adora citar Machadão (apelido: Bruxo do Cosme Velho, dá de dez naquele seu nick safadinho de msn) na hora de falar de “livro chato” e supostos traumas literários perpetrados por professores de português do primeiro grau. Cadê vergonha na cara, gente? Este livro é narrado por um morto mais de 100 anos antes de Beleza Americana. É ferino, irônico, mordaz, com um humor inteligente e uma sofisticada crítica da sociedade da época, que pode facilmente servir de base para analisar qualquer sociedade, de qualquer época. O livro também flerta com a ausência de linearidade, e disso qualquer jogador narrativista gosta (quem fizer adaptação de Brás Cubas pra FIASCO, guardadas as devidas proporções, merece tudo). E nem adianta reclamar de algumas palavras “difíceis”: dicionário é uma invenção fabulosa da humanidade. Quanto mais palavras você sabe, mais coisas é capaz de dizer – e se o RPG é baseado na palavra, considere-se obrigado/a a conhecer este clássico da sua língua: A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. Taí, grande dica para qualquer jogador de RPG!
Citação: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. (mas a melhor citação é todo o capítulo 55)

5) Crime e Castigo, Dostoievski
É aquela coisa: todo mundo tem que ler isso aqui um dia. Sério. As pessoas não deveriam ser consideradas plenamente alfabetizadas até ler pelo menos um clássico russo. Não é elitismo, é escola da vida. A história do ex-estudante Raskolnikov é a quintessência da angústia existencialista. Enquanto nos aprofundamos nos dilemas éticos, morais e psíquicos do protagonista, que tenta elaborar justificativas para um crime terrível que ele se prepara para cometer, também vamos lentamente escavando as partes mais sórdidas de nós mesmos. Que viagem. Mas e na mesa de jogo? Bem, o livro é um verdadeiro manual para a criação de personagens com intensa vivência psicológica, e para incluir culpa e consciência em narrativas. É uma obra seminal para mestres interessados em torturar psicologicamente seus jogadores, hehe. Também há muito simbolismo através de sonhos, o que sempre é interessante para quem curte um jogo com cinematic/cutscenes. O livro tem ainda uma cena terrível e cheia de significado de sofrimento animal, só superada pela morte da Baleia. =(
Citação: Tudo está ao alcance do homem, e tudo lhe escapa, em virtude da sua covardia.

Apêndice 1
Todos os livros citados aqui podem ser facilmente encontrados em sebos e bibliotecas. Alguns estão disponíveis gratuitamente na internet, pois são de domínio público.

Apêndice 2
Sério, LEIAM VIDAS SECAS.

Imagens meramente ilustrativas.

3 Respostas para “5 livros civis para RPGistas hardcore

  1. Lolita e o apanhador nos campos de centeio são livros obrigatórios pra quem quer interpretar um personagem complexo de verdade.
    Ah, e os livros do Machado realmente traumatizam MUITO quem gosta de ler durante o ensino médio. Demora bastante pra se acostumar com o estilo literário dele. Mas temos representantes muito, muito mais enfadonhos.

  2. Excelentes indicações. Com citações a dois dos meus livros favoritos, então, sem comentários. Gostaria da fazer uma sugestão adicional, já que estamos falando de referências não óbvias: acho que Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, apresenta um panorama do ser humano em condições adversas, extremas, e pode servir muito bem a qualquer um interessado no comportamento das pessoas quando elas deixam de ser “gente”.

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