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Garotas também querem se divertir

d20 gigante de acrílico: eu quero!

d20 gigante de acrílico: eu quero!

Eu não preciso escrever de novo – mas vou escrever assim mesmo – que garotas gostam de jogar RPG, e de conversar sobre RPG, e de produzir seus próprios jogos de RPG. Sim, mais do que jogadoras, somos também produtoras de conteúdo, tradutoras, editoras…

Para começar o ano de forma inspiradora, resolvi fazer uma lista de mulheres brasileiras que desenvolveram ou estão desenvolvendo RPGs e jogos afins (vale cenário, sistema, adaptação, aventura, larp, poem, storygame, cardgame, boardgame, etc). Certamente a lista está incompleta, e se você é uma autora de jogos que ainda não está neste post, ou conhece outros jogos analógicos feitos por mulheres do nosso país, dê um toque nos comentários. Quero conhecer também as mulheres dos boardgames e cardgames. 😉

NOME: Cecília Reis
SITE: ceciliareis.com.br
JOGO(s) DESENVOLVIDO(s): sistema Hiemis e guia sobre Sangramento (bleeding) em larps
ONDE ACHAR SEU(s) JOGO(s): Sistema Hiemis

NOME: Juliana Truite
SITE: Medium da Juliana
JOGO(s) DESENVOLVIDO(s): Tenebris (FVM2015) e Um Jogo para Amélia (Game Chef 2015)
Onde achar: Medium da Juliana

NOME: Viviane L. Costa
SITE: As Tralhas RPGísticas da Graci
JOGO(s) DESENVOLVIDO(s): Instinto (Aventura gratuita para Accursed)
ONDE ACHAR SEU(s) JOGO(s): Site da Retropunk

NOME: Evelini “Eva Morrissey” Andrade
SITE: Livros dos Espelhos
JOGO(s) DESENVOLVIDO(s): Hogwarts RPG
ONDE ACHAR SEU(s) JOGO(s): Hogwarts RPG – Bruxos de Harry Potter Adaptados para Storyteller

NOME: Ixa Passacoca
SITE: Clockworked Rat
JOGO DESENVOLVIDO: O cenário de Maeve que será multi sistema; adaptações previstas são pra GURPS e FATE.
ONDE ACHAR SEU JOGO: clockworked-rat.tumblr.com

NOME: Barbara Rodrigues e Raphael Carmo
SITE: Página do jogo no Facebook
JOGO DESENVOLVIDO: Matriarcana
ONDE ENCONTRAR SEU JOGO: Matriarcana no Global Game Jam 2016

NOME: Livia von Sucro
SITE: Dado Violado (sim, sou eu mesma)
JOGO(s) DESENVOLVIDO(s): MENINa; No Fim de Todas as Coisas; Trauma (cenário para PULSE)
ONDE ENCONTRAR SEU(s) JOGO(s): MENINa em português
“Girl”, sua versão em inglês, será publicado na antologia internacional de mini games #Feminism
No Fim de Todas as Coisas
Trauma

[update]

NOME: Eliane Bettocchi
SITE: http://www.ufjf.br/licenciaturavisuais (Eliane é coordenadora do curso)
JOGO DESENVOLVIDO: Incorporais
ONDE ENCONTRAR SEU JOGO: Incorporais RPG

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RPGzão das minas

Pode decote, pode minissaia, pode miniatura, só não pode babaquice

Pode decote, pode minissaia, pode miniatura, só não pode sexismo

Tudo começou assim: a página do Facebook “A Taverna” resolveu fazer uma gracinha sobre a presença de mulheres no RPG, e postou isso (caso tenha sido deletado, tente aqui). Sim, em pleno 2015 tem gente que acha que objetificar mulheres não cria protesto no mundo ocidental. Se foi ingenuidade ou má-fé, não posso julgar… mas tive que acordar o blog da animação suspensa para reiterar que: não, não é legal “demonstrar” a presença de mulheres no RPG associando-as à peitos. Entendam, não é. O uso deste tipo de piada merece um debate mais aprofundado, para além da polarização e de acusações de “feminazismo”, “manginismo”, “se fossem peitorais de guerreiro ninguém ligava” e bobeiras afins – e eu gostaria de ter uma discussão madura com os autores d’A Taverna, mas parece que vai ser impossível. Fica o apelo: este post não é um chamado para a guerra, é um convite à reflexão.

Não adianta dizer que “o sexismo está nos olhos de quem vê”, porque qualquer um que não tenha déficit visual enxergou as tetas da mocinha (que sequer ganhou um rosto na postagem). E não importa se a menina que tirou a foto queria  exibir o busto ou não; não é a conduta dela que está sendo discutida, e sim a de um grupo de pessoas que detêm certa legitimidade dentro do mundinho RPGista (fundamentada até pelos milhares de seguidores que possuem) ao usar deste tipo de discurso a esta altura do campeonato.

Então vou repetir: não. é. legal.

Não é inteligente, não é descolado, não é engraçadão, não demonstra que você lida bem com sua sexualidade, não é “adulto”. É apenas besta e comum. Já é tradicional na nossa sociedade usar do corpo das mulheres como metonímia do gênero (e, especificamente, daquelas porções erotizadas e em conformidade com os padrões de beleza), num reducionismo humilhante. A mulheres que jogam RPG não querem aparecer numa página de RPG apenas como peitos atrás de um pingente de d20 – queremos aparecer como autoras, como críticas, ou como personagens bem construídas que não tenham como principal característica a sexualidade. Diferente seria mesmo representar as mulheres para além destes velhos displays de peitos, decotes e bijuterias.

Então por favor lembrem-se disto, rapazes que porventura estejam lendo: é muito difícil para uma mulher quebrar paradigmas e se tornar jogadora de RPG. Então tente acolhê-la usando sua compreensão e respeito e não, ops, peitos.

Até porque algumas mulheres nem os tem. #transfobianão

E como o blog é para maiores, um resumo para quem tem preguiça de ler:

Sem créditos porque não sei quem criou a imagem

* * *

Editado em 08/02/15:

Um grupo de mulheres RPGistas lançou uma carta aberta à comunidade através do famoso site Livro dos Espelhos. Clique aqui para ler.

Caso você tenha feito algum post ou lido algo interessante que possa acrescentar conteúdo ao debate, coloque o link aqui nos comentários ou na página do Dado Violado no Facebook para que eu possa publicá-lo. 😉

O inevitável: mulheres e o RPG

Eu, rolando dados alguns anos atrás

Não tinha como escapar: mulher que joga RPG precisa falar sobre a visão “feminina” do jogo. Mas será que existe isso mesmo? Será que há alguma diferença entre um jogador e uma jogadora?

Eu acredito que homens e mulheres são iguais, ou pelo menos equivalentes. Praticamente tudo que um pode fazer o outro também pode. Não creio que haja “coisas de meninos” ou “coisas de meninas”, isso não passa de construções sociais arcaicas que a modernidade está aí para revolucionar. Mas será que dá para perceber um padrão de comportamento que diferencie homens de mulheres na hora de jogar RPG? Ou será que este padrão também não passa de uma “construção social arcaica”?

Brincos de d10

Em todos estes anos jogando RPG, conheci muito mais homens do que mulheres jogadores. E a proporção é alta, pelo menos uns 5 caras para cada moçoila, se duvidar até mais. Sempre houve meninas além de mim nos meus grupos antigos, mas no atual somos eu e três homens. Em resumo: na minha percepção, existem mais homens jogando RPG do que mulheres. Penso que isso ocorre porque homens têm mais acesso ao jogo do que as mulheres. Muitos de nós começamos a jogar na infância, quando os grupos de amigos ainda são prioritariamente baseados no gênero. Assim, os meninos vão chamando outros meninos para jogar, perpetuando a condição de minoria das meninas. Além disso, vejo muito preconceito com o “brincar” na fase adulta das mulheres.

Você acha que Angélica seria vista com camisa do Batman?

Sim, você não leu errado: RPG é uma brincadeira, acima de tudo. E a sociedade não vê com bons olhos mulheres que brincam. Homem pode jogar pelada, jogar vídeo-game, vestir camiseta divertida, sair de tênis à noite. Mulher não pode. E se RPG é uma brincadeira, uma mulher que jogue RPG em sua vida adulta é considerada menos feminina, me parece. Quando você vê uma matéria glorificando os “nerds”, é mais comum encontrar garotos ou garotas geeks ilustrando a reportagem? Geralmente as mulheres em cena são umas gostosas fantasiadas servindo de “mulher-samambaia”… dureza. Não, não estou dando uma de feminista, estou relatando a verdade. Penso que o “status quo” relega aos homens o papel de imaturos, engraçados, brincalhões (ou pelo menos é mais condescendente com homens que se comportem desta forma); as mulheres têm de ser maduras, femininas, sedutoras, chatas, até. Esse é o estereótipo.

E é claro que no mundo do RPG, que é um microcosmo do nosso mundo, estes estereótipos são passados adiante sem muita reflexão. Quem nunca ouviu (ou nunca disse…) que mulher “não sabe mestrar”, “não gosta de fantasia”, “só joga RPG por causa do namorado”?

Será que mulher não sabe jogar?
Posso estar fazendo um gol contra, mas me arrisco a dizer que a maioria das meninas gosta muito mais de “interpretar” do que de saber com quantos paus se faz uma canoa dados se faz uma rolagem de combate. Eu não sei o motivo disso. Talvez também seja cultural, garotas são estimuladas a ser emotivas e a lidar bem com palavras, enquanto meninos são ensinados a se comportar de maneira racional e a privilegiar números… e esta socialização boboca transparece na hora do jogo. Já cansei de ver jogadoras “super experientes” que não sabem fazer uma ficha do sistema que dizem jogar há anos… e nunca vi um homem que goste muito de um sistema ignorar coisas básicas do mesmo. E isso é um prato cheio para os preconceituosos. Então, eu conclamo: meninas, ignorem as regras que quiserem, mas pelo menos se dêem ao trabalho de conhecê-las. Experimentem mestrar para o grupo de vocês. Montem fichas de personagem… E vocês, garotos, colaborem! Pensem em todas as barreiras que uma menina teve de enfrentar para apreciar o jogo, e sejam legais.

Mas esse post está ficando enorme, e tudo o que eu quero dizer é: uma menina joga RPG da mesma forma que um menino, apenas pode ter encontrado mais dificuldade para começar a jogar por questões sócio-culturais – mas um grupo bacana pode ser decisivo para tirar esse “ranço”. E um grupo de RPG no fim das contas é um grupo de amigos – e amizade independe de gênero.

Apêndice 1
Será que eu preciso mesmo abordar algum tipo de “tensão sexual” que possa ocorrer dentro do grupo? O blog é voltado para maiores de 18 anos, gente que já aprendeu a lidar melhor com seus hormônios… além disso, também não achei pertinente falar da “namorada que impede o namorado de jogar”. Meu foco é nas RPGistas, não nas garotas externas ao grupo. Também acho que ainda não é hora de falar sobre como os jogos de RPG representam as mulheres.
Mas estes também são temas relevantes. Caso alguém se interesse, deixe feedback. Quem sabe no futuro eu não fale mais deles?

Apêndice 2
Falei muito de jogadoras, mas não esqueci das autoras. Se você acha que autoras de RPG são mais raras que companheiras de mesa, dê uma olhadinha nessa lista, que compila algumas das autoras mais famosas.

Imagens meramente ilustrativas