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Ser ou não ser, eis a questão

I know who I am: I'm the dude playin' the dude, disguised as another dude!

No post sobre RPG & Mulheres, a Petra deixou um comentário que me intrigou. É claro que todo o feedback que eu recebi foi incrivelmente valioso (como falei no twitter, eu escrevo para LER, não para ser lida), mas é que ela acertou em cheio sobre o que eu já tinha planejado falar. Vejamos: Aproveitando o post para ser chata e contar uma vontade minha xD É que uma coisa sobre a qual gostaria de ver sua opinião um dia é a relação personagem/jogador e jogo/realidade, tipo, como quando um casal de personagens acaba gerando um casal entre players, ou quando jogador tem ciúmes de NPC, ou de outro jogador, brigas em on causam atritos em off, tristeza profunda pós-morte de personagem, coisas assim. Porque nem sempre dá pra separar o jogo, e por mais que conscientemente a pessoa saiba que é ficcção, as vezes não dá para não sentir algo…

Eu já falei sobre a dicotomia personagem x jogador algumas vezes em discussões perdidas pelo Orkut, e quase sempre a reação das pessoas é discordar de mim…. porque eu acho que é impossível dissociar-se por completo do personagem que estamos interpretando. Quase todas as definições de saúde mental que eu conheço (se não todas) encaram a empatia como um componente essencial do bem-estar psíquico e emocional – um sociopata é um indivíduo desprovido de empatia, por exemplo. Muitos biólogos já escreveram teses, tratados e livros sobre como somos seres sociais, demonstrando que provavelmente há um substrato biológico para a empatia. Alias, nossa sobrevivência como espécie depende desta capacidade de reconhecer as emoções alheias e nos colocarmos no lugar do outro – em resumo, empatia é conseguirmos sentir afetividade* de acordo com a situação do outro, independentemente da nossa.
*afetividade: atividade do psiquismo que constitui a vida emocional do ser humano

Se você não sente empatia nem por um cachorrinho sem perna...

Em certos aspectos, penso que a empatia é uma das “colas” que mantém a sociedade unida, pois a partir dela podemos nos comportar com justiça prescindindo de freios auto-impostos como religião ou punição criminal. Talvez você nunca tenha parado para pensar sobre isso, mas em certa medida até a arte depende da  nossa capacidade de sermos empáticos. Sem empatia, é impossível sentir qualquer coisa para além de nós mesmos, e acho que todos aqui no DV concordamos que essa seria uma vida emocionalmente paupérrima, de um narcisismo primário.

Valar Morghulis

Talvez pareça que estou falando de algum tipo de altruísmo inalcançável, mas a empatia aparece em coisas simples: por que você ri quando vê alguém dando risada? Por que fica bravo quando alguém lhe conta uma injustiça? Por que acha filhotes fofinhos? Por que fica triste quando vê sua mãe sofrer? Por que torce pela Arya? Porque você sente empatia. Ser solidário não é só entregar a vida aos pobres como fez a Madre Teresa, é também ajudar um cego na rua, engajar-se em trabalho voluntário ou frear o carro se um cachorro atravessa a pista. Outra coisa interessante sobre a empatia é que, apesar de ser uma habilidade inata, ela requer maturidade e muitas vezes um exercício consciente da gentileza. Crianças muito pequenas ainda não conseguem distinguir onde elas terminam e onde começa o mundo (o outro) – então são egoístas com suas posses, do brinquedo à mãe. Mas a maturação intelectual e psíquica, quando saudável, vem acompanhada do florescimento da empatia.

“Tá Livia. Mas cansei da aulinha chata de Antropologia/Psicologia/Sociologia. Pára de viajar e me diz: o que isso tem a ver com o RPG?” Isso tem TUDO a ver com RPG: se você é um ser dotado de empatia, capaz de reconhecer e sentir as emoções alheias, como é que vai se separar totalmente do personagem que você representa? Eu sei que a vida toda você deve ter ouvido que “isso é só um jogo, você não é um vampiro” (e você não é MESMO um vampiro!), mas não se sinta culpado(a) nem doente se ficar chateado(a) quando seu personagem morrer ou não conseguir realizar algo. Faz parte da experiência de jogo sentir empatia pela criatura que nasceu da sua ficha. Não é meu objetivo aqui falar de técnicas de representação teatral, mas algumas delas preconizam que busquemos em nós mesmos algum correlato emocional próprio para conseguir fazer com que a emoção do personagem seja crível. Na minha experiência com RPG, muitos jogadores fazem isso naturalmente (talvez venha daí o papel catártico do jogo para muitas pessoas), o que só aprofunda o vínculo entre personagem e jogador.

Não tem nada de errado em se frustrar quando o personagem se frustra, em sofrer quando ele sofre, em se regozijar quando ele é bem-sucedido, ou até passar por algum tipo de luto quando ele morre. Na verdade, isso é um sinal de saúde mental, como eu expliquei lá em cima. Ser completamente incapaz de colocar-se no lugar do seu personagem – que não só está “vivo” durante o jogo, como foi você quem lhe deu esta “vida” – pode ser um sinal de que algo não vai bem com você. E assim o oposto também indica algum problema: ser incapaz de separar a sua personalidade daquela que você está representando (e por consequência, separar a realidade da ficção) não é algo sugestivo de maturidade e saúde psíquicas.

Conforme envelhecemos, vai ficando moleza distinguir nossa identidade daquela do personagem, mas quando somos jovens não é incomum ver nas mesas todo tipo de picuinha por coisas que só acontecem dentro do jogo. Na minha visão, não tem problema, desde que a coisa não degringole para nada mais alarmante que uma discussão ou alguns dias “de mal” do coleguinha. É experimentando, errando e debatendo que a gente aprende. Agora, não dá para acabar com uma amizade ou agredir fisicamente alguém por causa de uma brincadeira, sejamos racionais. Assim como não tem graça nenhuma usar a mesa de jogo para punir ou manipular os demais jogadores – em pouco tempo você vai acabar com a diversão. E aqui entra ainda a questão dos relacionamentos que surgem na mesa de jogo. Bom, se é possível encontrar um amor na escola, no clube, na balada, no trabalho, por que não poderíamos encontrá-lo rolando uns dadinhos? A dica é a mesma: empatia sim, excesso não. Você pode até usar da lábia do seu PC para conquistar o objeto do seu desejo, mas não vale insistir se não deu rock, nem querer trazer todas as questões do relacionamento para a aventura dos outros, pois o preço a se pagar é sempre o fim da diversão. E pra quê jogar se não está sendo agradável?

É por isso que você precisa estar com a cabeça em dia para jogar: se a experiência na mesa for profunda, se a imersão for eficaz, é preciso emergir da narrativa com sua psique intacta. No fim das contas, você não precisa se desligar automaticamente do personagem ao término do jogo, como se as vivências dele não representassem nada para você – mas precisa fazê-lo quando não estiver jogando. Conversar sobre a sessão que acabou de rolar é um bom jeito de “sair aos poucos” do personagem, aproveitando até para dar significado para a trajetória do mesmo. É claro que a imensa maioria dos jogadores é saudável e/ou tem suporte emocional para conseguir, inclusive num “ato reflexo”, sentir empatia pelo personagem e ter consciência de que ele é apenas ficção. Mas é preciso estar atento para quem não demonstra essa capacidade, e se necessário buscar ajuda.

Eu comecei o post com uma cena do filme “Trovão Tropical”. Assistam sem preconceitos: é uma comédia bem-feita e metalinguística com uma crítica inteligente sobre Hollywood. Na história, Robert “Iron Man” Downey Jr é um ator australiano que se transforma em negro para interpretar um dos militares do filme que se passa dentro do filme. Na antológica cena em questão, ele tem uma epifania existencial e… ah, assistam e pensem na sua mesa de jogo.

Apêndice 1
Já pensou que no RPG não só você interpreta um personagem como geralmente é responsável pela gênese do mesmo? Você é autor e ator ao mesmo tempo, muitas vezes por meses ou até anos. Acho que é totalmente compreensível que você se apegue à sua criação.

Apêndice 2
Existe uma forma terapêutica de roleplay voltada para quem passa por sofrimento mental: é o Psicodrama, um tipo de terapia. Leiam à respeito, se tiverem curiosidade.

Apêndice 3

PELAMORDECTHULHU, hein?

Usar a mesa de jogo para cantar outro jogador pode ser legal se for feito com muita moderação e respeito, sem forçar a barra e sem constranger o resto da mesa. Sugestão: convide o alvo para jogar um RPG “de dois”, como o sensacional “Breaking the Ice” – que é exatamente sobre relacionamentos amorosos! Muito mais legal. Mas saiba ouvir um “não” sem estragar a amizade. Já se a coisa der certo,  PELAMORDECTHULHU, não use a mesa para fazer DR e muito menos para privilegiar o(a) parceiro(a).

Imagens meramente ilustrativas.

RPG? É aquele negócio da coluna?

Brinks

Pessoal, obrigada pela acolhida calorosa de volta à blogosfera RPGística! Espero não espantar ninguém quando eu começar a postar sobre o velho World of Darkness… mas vamos ao que interessa hoje, porque pelo visto minha responsabilidade cresceu bastante nos últimos dias (iiihhhh…. xD).

Afinal de contas, o que é esse tal de RPG?

É CLARO que você acha que está cansado(a) de saber. Ainda que novatos sejam bem-vindos, imagino que o público (meus 6 leitores!) do Dado Violado já esteja careca de tanto rolar dado, montar ficha e rezar pra ninguém faltar à sessão. A questão aqui é outra: você já parou para pensar sobre o RPG, ou apenas se deixou levar pela experiência em si, irrefletidamente?

No “about” do Dado Violado (vou começar a usar DV, ok?), eu copiei a definição que está na Wikipédia:

Role-playing game, também conhecido como RPG (em português: “jogo de interpretação de personagens”), é um tipo de jogo em que os jogadores assumem os papéis de personagens e criam narrativas colaborativamente. O progresso de um jogo se dá de acordo com um sistema de regras predeterminado, dentro das quais os jogadores podem improvisar livremente. As escolhas dos jogadores determinam a direção que o jogo irá tomar.

Eu concordo com boa parte do que foi dito aí, já é um fiapo para gente começar a desenrolar o novelo do RPG. Mas o começo do parágrafo me incomoda. Sim, é aquele “interpretação de personagens”. Hoje vejo muitas pessoas preferindo esse termo. A tradução consagrada no Brasil é “jogo de interpretação de papéis”, mas não é só isso que chama atenção. Vamos analisar com calma.

“Personagem” e “papel” nem sempre são sinônimos. Penso que personagem está muito ligado à questão de uma identidade, enquanto papel representa mais uma função. No teatro talvez não seja necessário fazer esta distinção, mas no RPG ela me parece essencial, pois a maioria dos personagens é construída a partir de suas funções (“corre rápido”, “eu sei os nomes das constelações”, “tem Força 4”, “tem Sabedoria 8”, “desarma armadilhas”, etc, em termos simples de jogo).  Jogos como FIASCO, por exemplo, vão mais longe e propõem que a identidade do personagem seja fundamentada durante o jogo, tendo como base não uma ficha, mas um papel qualquer que destaque as atribuições (e atribulações) do indivíduo a ser interpretado…

Eu até me pergunto se essa questão do papel x personagem não seria um preciosismo irrelevante, mas eu acredito que faz mesmo diferença, conceitualmente falando.

Bom, para levantar essa lebre (meu pai sempre fala “levantar a lebre” [sem duplo sentido]) sobre a definição da Wikipédia, é claro que eu já tinha meu conceito particular de RPG na manga, só que ele é um pouquinho mais conciso que o da Mãe dos Burros:

RPG (“Role playing game” ou “jogo de interpretação de papéis”) é um tipo de jogo baseado na interpretação de papéis, onde se constrói coletivamente uma história.

Penso que essa frase simples contem tudo o que define o nosso bom e velho roleplay: o fato de que RPG é um tipo de jogo; a necessidade de assumir um papel dentro deste jogo (mesmo que seja o papel de “guia” – Mestre, DM, GM, Narrador, pick your poison); o caráter coletivo da experiência e, por fim, o resultado final da mesma, que é uma “história”, uma narrativa.

Claro que a minha proposta não é definitiva, e com ela vêm outras questões: o que é “interpretar”? De que maneira se dá esse processo colaborativo? Ele sempre culmina na geração de uma história? RPG com regras inventadas é RPG? RPG epistolar/por email/via fórum é RPG ou é apenas ficção coletiva?

Mas essas questões eu vou deixar para o futuro, acho que ainda terei posts o suficiente para brincar com elas.

Então chega mais e me conta: para você, o que é RPG?

Apêndice 1
Quando eu falo que um personagem é construído “a partir” de suas funções, até já me arrepio pensando em alguém argumentando que “PÔ LIVIA, eu sempre começo do prelúúúúdioooo….”. Bom, não importa de onde se comece, para jogar RPG é preciso definir algum tipo de papel para você na história e é disso que partem as mecânicas dos RPGs que eu conheço. “Tá falando de CLASSE?” Não não, estou falando genericamente. Esse papel não é classe nem atributo, é mais ou menos o que um personagem (ou se você estiver jogando Universalis, uma história…) pode ou não pode fazer, como ele se comporta, a parte que lhe cabe do mundo, aquilo que se espera dele, o propósito, etc.

Apêndice 2 (fonte: Google scholar e Google books)
Um pouco da etimologia de “role”: deriva do francês “rôle” (papel representado no teatro ou na vida), que por sua vez vem do francês antigo “rolle” (rol, lista, rolo com coisas escritas, rolo com o papel de um ator no teatro). “Rolle” vem do latim “rotulus”, que significa tanto pergaminho (“folha enrolada com coisas escritas”) quanto “folha enrolada onde está escrito o papel de um ator”. “Rotulus” teria dado em… “rótulo”, aqui no português. E em rolista. xD

Imagens meramente ilustrativas