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Queria Jogar RPG ou balanço de final de ano

=(

E como eu queria! Aliás, continuo querendo. Mas a vida não deixa.

Tá, um monte de gente tem trabalho-família-vida social e ainda arruma tempo para jogar-mestrar-escrever-diagramar-playtestear RPG e o escambau, mas eu simplesmente não consigo arranjar horário nem para one-shot de Fiasco. É claro que eu tento organizar as coisas de forma a jogar pelo menos algumas vezes por ano, mas não consigo passar disso. E todo final de ano (desde que “cresci”) me faço a mesma promessa: “ano que vem jogarei RPG pelo menos uma vez por mês!” – mas é claro que eu não cumpro. Não, eu nunca prometi fazer dieta. *pano rápido*

Durante 2012 inteiro (e 2012 acaba daqui a, tipo, DOIS MESES) eu não devo ter jogado mais do que cinco sessões. Sim, li vááários livros de RPG, blogs, análises, críticas e até um ou outro artigo científico sobre o tema, até joguei jogos “de dois”, mas não é a mesma coisa. Poucas atividades superam uma boa mesa de RPG, principalmente quando ela envolve pessoas legais e uns lanchinhos bacanas. E, sinceramente, quanto menos eu jogo, mais vontade tenho de financiar qualquer projeto que surja com a mágica sigla tríplice na tela do meu computador. E dá-lhe chororô na hora de abrir a fatura do cartão…

“Ok, Livia, então isso aqui virou diário, agora? Divã de analista?”

Dados do Egito antigo

Não, mas acho que o fenômeno da falta de tempo para exercer uma de suas atividades favoritas é sempre merecedor de análise. Não sou a única a passar por isso; todos conhecemos jogadores que abandonaram as dungeons em nome das responsabilidades dessa tal “vida adulta”. Mas eu quero muito incluir o RPG nessa etapa da minha vida, a despeito das obrigações familiares e/ou financeiras. #COMOFAZ

A onda independente ajuda: jogos mais curtos, zero-prep, low mechanics, temáticas adultas. Mas não é o suficiente. Quem tem um trabalho que demanda muitas horas como o meu (residência médica) ou o do meu namorado (consultor de dia, professor de noite) acaba reservando seu escasso tempo livre para ficar com a família, estudar e dormir (para os fracos, eu sei, mas não gosto de café…). O que será que ando fazendo com meu tempo que ele não rende? Devo comprar uma agenda?

E vocês, sentem saudade de rolar os dados, ou conseguiram incluir uma rotina de jogo em suas vidas?

Apêndice 1
Não se assustem com o “balanço final”, pretendo postar mais coisas este ano!

Apêndice 2
Saudades da adolescência! Jogar RPG praticamente todo final de semana, às vezes emendando sexta-sábado-domingo… *velha*

Imagens meramente ilustrativas (sorru galera do QJRPG!)

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Ser ou não ser, eis a questão

I know who I am: I'm the dude playin' the dude, disguised as another dude!

No post sobre RPG & Mulheres, a Petra deixou um comentário que me intrigou. É claro que todo o feedback que eu recebi foi incrivelmente valioso (como falei no twitter, eu escrevo para LER, não para ser lida), mas é que ela acertou em cheio sobre o que eu já tinha planejado falar. Vejamos: Aproveitando o post para ser chata e contar uma vontade minha xD É que uma coisa sobre a qual gostaria de ver sua opinião um dia é a relação personagem/jogador e jogo/realidade, tipo, como quando um casal de personagens acaba gerando um casal entre players, ou quando jogador tem ciúmes de NPC, ou de outro jogador, brigas em on causam atritos em off, tristeza profunda pós-morte de personagem, coisas assim. Porque nem sempre dá pra separar o jogo, e por mais que conscientemente a pessoa saiba que é ficcção, as vezes não dá para não sentir algo…

Eu já falei sobre a dicotomia personagem x jogador algumas vezes em discussões perdidas pelo Orkut, e quase sempre a reação das pessoas é discordar de mim…. porque eu acho que é impossível dissociar-se por completo do personagem que estamos interpretando. Quase todas as definições de saúde mental que eu conheço (se não todas) encaram a empatia como um componente essencial do bem-estar psíquico e emocional – um sociopata é um indivíduo desprovido de empatia, por exemplo. Muitos biólogos já escreveram teses, tratados e livros sobre como somos seres sociais, demonstrando que provavelmente há um substrato biológico para a empatia. Alias, nossa sobrevivência como espécie depende desta capacidade de reconhecer as emoções alheias e nos colocarmos no lugar do outro – em resumo, empatia é conseguirmos sentir afetividade* de acordo com a situação do outro, independentemente da nossa.
*afetividade: atividade do psiquismo que constitui a vida emocional do ser humano

Se você não sente empatia nem por um cachorrinho sem perna...

Em certos aspectos, penso que a empatia é uma das “colas” que mantém a sociedade unida, pois a partir dela podemos nos comportar com justiça prescindindo de freios auto-impostos como religião ou punição criminal. Talvez você nunca tenha parado para pensar sobre isso, mas em certa medida até a arte depende da  nossa capacidade de sermos empáticos. Sem empatia, é impossível sentir qualquer coisa para além de nós mesmos, e acho que todos aqui no DV concordamos que essa seria uma vida emocionalmente paupérrima, de um narcisismo primário.

Valar Morghulis

Talvez pareça que estou falando de algum tipo de altruísmo inalcançável, mas a empatia aparece em coisas simples: por que você ri quando vê alguém dando risada? Por que fica bravo quando alguém lhe conta uma injustiça? Por que acha filhotes fofinhos? Por que fica triste quando vê sua mãe sofrer? Por que torce pela Arya? Porque você sente empatia. Ser solidário não é só entregar a vida aos pobres como fez a Madre Teresa, é também ajudar um cego na rua, engajar-se em trabalho voluntário ou frear o carro se um cachorro atravessa a pista. Outra coisa interessante sobre a empatia é que, apesar de ser uma habilidade inata, ela requer maturidade e muitas vezes um exercício consciente da gentileza. Crianças muito pequenas ainda não conseguem distinguir onde elas terminam e onde começa o mundo (o outro) – então são egoístas com suas posses, do brinquedo à mãe. Mas a maturação intelectual e psíquica, quando saudável, vem acompanhada do florescimento da empatia.

“Tá Livia. Mas cansei da aulinha chata de Antropologia/Psicologia/Sociologia. Pára de viajar e me diz: o que isso tem a ver com o RPG?” Isso tem TUDO a ver com RPG: se você é um ser dotado de empatia, capaz de reconhecer e sentir as emoções alheias, como é que vai se separar totalmente do personagem que você representa? Eu sei que a vida toda você deve ter ouvido que “isso é só um jogo, você não é um vampiro” (e você não é MESMO um vampiro!), mas não se sinta culpado(a) nem doente se ficar chateado(a) quando seu personagem morrer ou não conseguir realizar algo. Faz parte da experiência de jogo sentir empatia pela criatura que nasceu da sua ficha. Não é meu objetivo aqui falar de técnicas de representação teatral, mas algumas delas preconizam que busquemos em nós mesmos algum correlato emocional próprio para conseguir fazer com que a emoção do personagem seja crível. Na minha experiência com RPG, muitos jogadores fazem isso naturalmente (talvez venha daí o papel catártico do jogo para muitas pessoas), o que só aprofunda o vínculo entre personagem e jogador.

Não tem nada de errado em se frustrar quando o personagem se frustra, em sofrer quando ele sofre, em se regozijar quando ele é bem-sucedido, ou até passar por algum tipo de luto quando ele morre. Na verdade, isso é um sinal de saúde mental, como eu expliquei lá em cima. Ser completamente incapaz de colocar-se no lugar do seu personagem – que não só está “vivo” durante o jogo, como foi você quem lhe deu esta “vida” – pode ser um sinal de que algo não vai bem com você. E assim o oposto também indica algum problema: ser incapaz de separar a sua personalidade daquela que você está representando (e por consequência, separar a realidade da ficção) não é algo sugestivo de maturidade e saúde psíquicas.

Conforme envelhecemos, vai ficando moleza distinguir nossa identidade daquela do personagem, mas quando somos jovens não é incomum ver nas mesas todo tipo de picuinha por coisas que só acontecem dentro do jogo. Na minha visão, não tem problema, desde que a coisa não degringole para nada mais alarmante que uma discussão ou alguns dias “de mal” do coleguinha. É experimentando, errando e debatendo que a gente aprende. Agora, não dá para acabar com uma amizade ou agredir fisicamente alguém por causa de uma brincadeira, sejamos racionais. Assim como não tem graça nenhuma usar a mesa de jogo para punir ou manipular os demais jogadores – em pouco tempo você vai acabar com a diversão. E aqui entra ainda a questão dos relacionamentos que surgem na mesa de jogo. Bom, se é possível encontrar um amor na escola, no clube, na balada, no trabalho, por que não poderíamos encontrá-lo rolando uns dadinhos? A dica é a mesma: empatia sim, excesso não. Você pode até usar da lábia do seu PC para conquistar o objeto do seu desejo, mas não vale insistir se não deu rock, nem querer trazer todas as questões do relacionamento para a aventura dos outros, pois o preço a se pagar é sempre o fim da diversão. E pra quê jogar se não está sendo agradável?

É por isso que você precisa estar com a cabeça em dia para jogar: se a experiência na mesa for profunda, se a imersão for eficaz, é preciso emergir da narrativa com sua psique intacta. No fim das contas, você não precisa se desligar automaticamente do personagem ao término do jogo, como se as vivências dele não representassem nada para você – mas precisa fazê-lo quando não estiver jogando. Conversar sobre a sessão que acabou de rolar é um bom jeito de “sair aos poucos” do personagem, aproveitando até para dar significado para a trajetória do mesmo. É claro que a imensa maioria dos jogadores é saudável e/ou tem suporte emocional para conseguir, inclusive num “ato reflexo”, sentir empatia pelo personagem e ter consciência de que ele é apenas ficção. Mas é preciso estar atento para quem não demonstra essa capacidade, e se necessário buscar ajuda.

Eu comecei o post com uma cena do filme “Trovão Tropical”. Assistam sem preconceitos: é uma comédia bem-feita e metalinguística com uma crítica inteligente sobre Hollywood. Na história, Robert “Iron Man” Downey Jr é um ator australiano que se transforma em negro para interpretar um dos militares do filme que se passa dentro do filme. Na antológica cena em questão, ele tem uma epifania existencial e… ah, assistam e pensem na sua mesa de jogo.

Apêndice 1
Já pensou que no RPG não só você interpreta um personagem como geralmente é responsável pela gênese do mesmo? Você é autor e ator ao mesmo tempo, muitas vezes por meses ou até anos. Acho que é totalmente compreensível que você se apegue à sua criação.

Apêndice 2
Existe uma forma terapêutica de roleplay voltada para quem passa por sofrimento mental: é o Psicodrama, um tipo de terapia. Leiam à respeito, se tiverem curiosidade.

Apêndice 3

PELAMORDECTHULHU, hein?

Usar a mesa de jogo para cantar outro jogador pode ser legal se for feito com muita moderação e respeito, sem forçar a barra e sem constranger o resto da mesa. Sugestão: convide o alvo para jogar um RPG “de dois”, como o sensacional “Breaking the Ice” – que é exatamente sobre relacionamentos amorosos! Muito mais legal. Mas saiba ouvir um “não” sem estragar a amizade. Já se a coisa der certo,  PELAMORDECTHULHU, não use a mesa para fazer DR e muito menos para privilegiar o(a) parceiro(a).

Imagens meramente ilustrativas.